Versailles no Bara (ベルサイユのばら) é um dos clássicos mangás shoujo mais conhecidos no ocidente. Na França o quadrinho foi relançado em uma versão especialmente caprichada celebrando antecipadamente os 40 anos da obra de
Riyoko Ikeda. Uma oportunidade de ouro para ler e ter na coleção um imponente clássico.
A inspiração da autora veio da obra de Stefan Zweig, que contribuiu para despertar seu interesse pela figure de Maria Antonieta. Ikeda comenta que os eventos em
La Rose de Versailles foram inspirados no livro do escritor austríaco. Inicialmente o foco seria a trajetória da ultima rainha da França, mas ao desenvolver o
projeto do mangá, ela criou personagens e histórias que seriam capazes de atrair o público.
Um detalhe curioso e que vale ser destacado, é o título. Segundo a autora, não se trata somente “da rosa”, mas “das rosas”. Assim como as cores da flor que estão associadas a um significado diferente, “as rosas” de Versailles no Bara são representadas da mesma forma. Na França o título foi traduzido literalmente do original, mas atingiria melhor a idéia da Riyoko no plural “Las Roses...”.
Na época de produção, a mangaká passou por muitos desafios até finalizá-lo. A primeira barreira foi convencer os redatores que um shoujo histórico poderia ser uma grande aventura. Ela ouviu frases desestimulantes e desagradáveis de seus
colegas de trabalho, afirmando sem nenhum embasamento, que garotas não se interessavam por história. Riyoko provou totalmente o contrário, chegando ao seu
limite físico e mental.
No Japão, A Rosa de Versalhes foi publicado durante 82 semanas, da primavera de 1972 ao outono de 1973. Foram vendidos 12 milhões de exemplares. Estimuladas pela riqueza histórica do mangá, suas leitoras buscaram por mais informações lendo livros sobre a Revolução Francesa e trocando idéias com seus professores de história. Sucesso imediato e que perdura até hoje.
Os franceses têm um carinho muito especial por
La Rose de Versailles, pois retrata um dos períodos mais importante da história da França. Em sua
visita ao Palácio de Versalhes, no ano passado, Ikeda recebeu o título de
“Chevalier de la Légion D'honneur” (Cavaleiro da Legião de Honra). A condecoração honorífica francesa é uma recompensa aos méritos eminentes militares ou civis à nação, instituída em maio de 1802 por Napoleão Bonaparte.
Seus personagens históricos e fictícios são marcantes pela complexidade. Todos foram minuciosamente construídos dentro dos fatos. É fenomenal ver como as personagens evoluem ao passar da trama e conseguem impor presença na trajetória verídica.
Maria Antonieta, uma figura histórica odiada, Riyoko a representa como uma rainha carinhosa e insegura. Mas não deixando de mostrar cronologicamente os erros que Antonieta cometeu no mundo da política e na época dos escândalos que terminou por afastá-la do povo.
Mesmo tendo antipatia por Maria Antonieta, ela não foi à única responsável pelas ações que provocaram o desmoronamento da França. Luís XVI negligenciava os seus deveres reais a favor da caça e do tempo passado na sua oficina de serralharia. Os nobres viviam de banquetes e muito luxo na corte. Os impostos eram pagos somente pelos trabalhadores, camponeses e a pequena burguesia comercial com o objetivo de manter os luxos da nobreza. A corte francesa sugava sem dó um povo miserável.
Oscar François de Jarjayes, 6ª filha do General de Jarjayes (personagem baseado na figura histórica de François Régnier de Jarjayes). Foi criada como um menino a fim de seguir a tradição familiar. Oscar estudou a arte do sabre, estratégia e política, tornando-se uma perfeita capitã da guarda real. A autora
revela que Oscar foi inspirada em várias figuras masculinas da época, assim como na sua personalidade e experiência pessoal.
Para mim, Oscar é a grande protagonista da série. Uma rosa branca profunda e reservada, que representou a ruptura do gênero. Ela conduz sua vida, decide ser soldado, tem senso de humor, contesta o pai, se interessa pelas
idéias iluministas, e é ela quem convida André para ir ao seu quarto ter uma noite de amor. Uma personagem que apresenta consciência em perceber erros e ir a favor da maré de seus ideais, mesmo que para isso se afaste das pessoas queridas. Ela é sincera consigo mesma e com o povo.
Desde pequena Oscar cresceu ao lado de André Grandier, o plebeu neto da governanta que serve a família Jarjayes há anos. Os dois construíram uma amizade solida que foi se transformando em amor. A paixão despertada derruba qualquer preconceito de classe. O afeto que André sente por Oscar é puro e intenso. Sou suspeita pra falar dele, já que sou apaixonada por essa personagem.
Ikeda pede desculpas pelos erros cometidos no uniforme da guarda francesa, que são na verdade da guarda real. Ela revela que não pôde modificar na época por não ter recebidos os documentos a tempo. O característico uniforme de Oscar data do começo do século XIX, da época de Napoleão. A autora revela que escolheu este uniforme pelo aspecto estético.
Acredito que a popularidade de La Rose de Versailles seja devido à naturalidade da união de Oscar e André, mostrando um romance adulto entre iguais; arte impar; narrativa lírica e dramática; a riqueza dos detalhes históricos; e por retratar através de suas personagens femininas as inquietações das mulheres de sua geração, incentivando-as a tomar o controle de sua consciência.
O diferencial desta edição comemorando os 40 anos foi à inclusão do gaiden La Comtesse en Noir (黒衣の伯爵夫人), publicado em fevereiro de 1974, que conta a história de terror da condensa vampiresca. E também reunindo quatro aventuras da sobrinha de Oscar, Loulou de la Rolancy, no volume 3.
Assim como a “História” que nunca envelhece, a obra atemporal de Riyoko Ikeda é respeitada por japoneses e estrangeiros. E mesmo hoje em dia, depois de todos esses anos, a criadora ainda receber cartas de fãs do mundo inteiro. Versailles no Bara foi revolucionário por mostrar “rosas” independentes e fieis aos seus próprios ideais. Um símbolo da juventude da mangaká. Uma obra que viverá em nossos corações por se mostrar intacta ao tempo.